da Sra. Patrizia Di Clemente. Smc. Zambia
Quando cheguei à Zâmbia, em 2008, dediquei algum tempo a conhecer o ambiente e o contexto para onde tinha sido enviada. Tive a oportunidade de participar num breve curso intitulado Welcome to Zambia, organizado pelos Missionários da África, durante o qual foram apresentados o contexto histórico e político, a situação social e económica e, sobretudo, a dimensão antropológica do povo zambiano.
A espiritualidade de um povo
Esta componente inclui aspetos da cultura tradicional e da espiritualidade. Sim, espiritualidade. Mais do que religioso, prefiro abordar o tema sob a conotação de espiritualidade.
Ao longo dos anos aprendi, compreendi e experimentei que a especificidade da identidade desta nação se manifesta ao recorrer à riqueza das 73 tribos que convivem num dos países mais singulares da África, e que têm vivido de forma admirável em paz.
A espiritualidade desempenhou um papel relevante em tudo isto. Cada tribo possui as suas especificidades, mas também alguns pontos em comum que facilitam as interações e a mobilidade entre os vários grupos. Isto reflete-se claramente no lema nacional: “uma Zâmbia, uma nação!”.
No meu ministério com raparigas adolescentes, desde o início, experimentei como os desafios sociais contemporâneos podiam gerar confusão e desorientação, especialmente na periferia da capital, Lusaka, onde os adultos tendem a tratar os jovens com coerção e manipulação na gestão das crenças tradicionais. Nesse sentido, vejo que a beleza da cultura e da espiritualidade tradicionais pode ser corrompida.
Os valores da cultura
Assim, comecei a oferecer seminários nas escolas, onde grupos de anciãos preparados (alanghisi) apresentavam, de forma interativa, os valores da sua cultura, pilares das suas vidas. O que imediatamente chamou a minha atenção foi a profunda ligação com a natureza. Deus, criador de tudo, estabeleceu para nós uma relação eterna com a sua criação.
Deus, chamado Chauta, que significa chuva, é a fonte da vida. Graças à chuva, as pessoas podem cultivar e garantir o seu sustento. Até nos hinos católicos se canta e se reza a Deus-Chauta! Deus criou tudo à sua imagem, afirmando a diferença e a especificidade de cada criatura viva.
A diferença serve para fortalecer a unidade através das possibilidades oferecidas à sociedade. Cada um é belo na sua diversidade e cada um tem o seu papel a desempenhar na família, na comunidade e na nação. As diferenças não anulam a unidade, mas fortalecem-na.
A importância dos símbolos
Existem símbolos criados com argila que explicam todo este dinamismo. A torre central é Deus ligado ao Universo, e o universo é habitado por todas as criaturas, representadas por diferentes sementes, que estão interligadas. A cada um de nós é dada uma semente e somos convidados a colocá-la em qualquer ponto da construção.
A consequência desta abordagem socioespiritual reflete-se na solidariedade expressa e vivida no clã e na comunidade. Isto continua a ser muito relevante no meio rural; nas cidades maiores, porém, está em risco devido às vulnerabilidades causadas pela miséria extrema e pelos comportamentos sociais desviantes. Esta é apenas uma das ricas componentes da espiritualidade tradicional na Zâmbia.

