Inma Cuesta. Smc.
Irmã Vera Rocha repete a palavra três vezes, como se a insistência fosse necessária para que a mensagem penetre: “Arrisca-te, arrisca-te, arrisca-te.” Ela é jovem, portuguesa, esteve em missão no México, e fala com a autoridade de quem acabou de atravessar o processo que está a descrever. Não fala como veterana que olha de longe para o caminho já percorrido, mas como alguém que ainda sente nas pernas o cansaço da subida.
“Eu também, para dar o meu sim, tive que ultrapassar o medo,” confessa. E aqui está a honestidade que torna o seu testemunho credível. Não diz que não tinha medo. Não apresenta uma narrativa heroica em que a clareza vocacional eliminou todas as dúvidas. Diz simplesmente: havia medo, e tive que ultrapassá-lo. O medo estava lá, real e presente, e o sim exigiu atravessá-lo, não negá-lo.
Mas então vem a parte que muda tudo: “Mas passo a passo, em cada resposta que eu dava, em cada sim que eu dava a esta decisão, eu me senti cada vez mais confirmada.” Reparem na estrutura temporal. Não foi: tive uma certeza absoluta, por isso dei o meu sim. Foi: dei pequenos sins, e cada um trouxe um pouco mais de confirmação para o próximo.
Esta é uma pedagogia radicalmente diferente da que muitas vezes apresentamos aos jovens sobre o discernimento vocacional. A narrativa tradicional sugere que primeiro vem a clareza total—uma experiência mística, uma certeza inabalável, uma luz que dissipa todas as dúvidas—e só depois, baseado nessa clareza, vem o compromisso. Como se Deus funcionasse como um GPS que te mostra o percurso inteiro antes de começares a caminhar.
Mas a experiência de Irmã Vera—e, suspeito, a experiência real da maioria das pessoas que seguem uma vocação—é completamente diferente. Deus não te mostra o mapa inteiro. Mostra-te o próximo passo. E quando dás esse passo, mesmo com medo, mesmo sem certeza absoluta, recebes confirmação suficiente para dar o passo seguinte. E assim, passo a passo, constrói-se um caminho que só se torna visível ao ser percorrido.
“Te digo a ti, jovem, arrisca-te, não tenhas medo, experimenta, procura,” insiste Irmã Vera. Há quatro verbos de ação aqui, todos no imperativo. Arrisca-te—assume o risco. Experimenta—prova, testa, não fiques só na teoria. Procura—move-te ativamente, não esperes que tudo te caia do céu. E entrelaçando tudo: não tenhas medo.
O medo é o grande paralisador do discernimento vocacional. Medo de errar. Medo de comprometer-te com algo que depois descubras não ser para ti. Medo de perder outras possibilidades. Medo de decepcionar pessoas. Medo de não seres capaz. Medo do definitivo, do para sempre, do irreversível.
E a resposta de Irmã Vera ao medo não é negá-lo ou minimizá-lo. É atravessá-lo através de pequenos riscos. Não precisas de dar um salto gigante no escuro. Dá um pequeno passo na penumbra. E depois outro. E outro. Cada passo traz um pouco mais de luz para o seguinte.
“E arrisca-te, porque detrás de cada porta, de cada obstáculo, há um mundo por descobrir.” Esta é uma promessa extraordinária. Não diz: detrás de cada porta há conforto, ou segurança, ou confirmação de que fizeste a escolha certa. Diz: há um mundo por descobrir. Implica maravilha, novidade, riqueza inesperada. Mas também implica desconhecido, imprevisível, desafiante.
Um mundo por descobrir. Não um caminho já mapeado. Não um destino garantido. Mas um mundo—vasto, complexo, cheio de surpresas boas e difíceis, um território que só se revela a quem tem coragem de atravessar a porta.
Há algo profundamente libertador nesta abordagem ao discernimento. Porque se a vocação exigisse certeza absoluta antes do compromisso, a maioria de nós nunca daria o passo. Esperaríamos pela clareza perfeita que nunca chega. Mas se a vocação se constrói através de pequenos sins, cada um confirmando o próximo, então torna-se possível. Não fácil, mas possível.
Irmã Vera fala com a urgência de quem quer poupar aos outros a paralisia que ela mesma talvez tenha experimentado. “Arrisca-te, arrisca-te, arrisca-te.” A tripla repetição não é retórica vazia. É insistência necessária contra o medo que sussurra: espera mais um pouco, até teres mais certeza, até o caminho estar mais claro, até sentires-te mais preparada.
Mas a preparação perfeita nunca chega. A certeza absoluta não existe deste lado da eternidade. E enquanto esperas, a vida passa. As portas que podiam abrir-se fecham-se. Os mundos que podias descobrir permanecem escondidos. Não porque Deus os retirou, mas porque tu não te arriscaste a atravessar a porta.
A mensagem de Irmã Vera aos jovens é, no fundo, um convite à confiança. Confiança em que Deus não te pede um salto cego no vazio, mas uma caminhada passo a passo em que cada passo traz confirmação para o seguinte. Confiança em que o medo pode ser ultrapassado sem ter que desaparecer primeiro. Confiança em que detrás de cada porta que te assusta há realmente um mundo a descobrir, não um abismo.
E há também um convite à ação. Porque podes passar anos a discernir teoricamente, a ponderar, a analisar. Mas em algum momento precisas de arriscar. De experimentar. De dar um pequeno sim que te compromete o suficiente para descobrires se há confirmação do outro lado. Sem esse risco, o discernimento torna-se procrastinação perpétua disfarçada de prudência.
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