Inma Cuesta e Gabriella Lado. Smc.
Quando a Yeda Alves Apolinária visitou pela primeira vez uma prisão em São Mateus, Espírito Santo, a jovem militante da pastoral social deparou-se com uma realidade desumana: celas superlotadas, onde 20 homens se amontoavam em espaços projetados para quatro pessoas. “Não pareciam seres humanos, pareciam bichos”, relata. Os detentos precisavam estabelecer turnos para dormir devido à falta de espaço físico.
Objetivo: humanizar as prisões
Foi o padre Emílio Gonzales, missionário comboniano, quem a convidou para esse chamado à missão. O que encontrou naquelas primeiras visitas marcou profundamente sua vocação: celas imundas, fedorentas, onde a dignidade humana havia sido completamente esquecida.
Durante anos, a Pastoral Carcerária lutou pela construção de novas unidades prisionais. O objetivo era claro: diminuir o sofrimento daqueles homens amontoados em condições subumanas. A perseverança trouxe resultados. Novas unidades foram construídas em São Mateus e em todo o Espírito Santo, representando um avanço significativo rumo à humanização do sistema prisional.
“Não é ainda o presídio dos nossos sonhos, mas um presídio com mais humanidade”, explica a agente pastoral. As novas instalações abrigam cerca de seis presos por cela, proporcionando mais espaço e permitindo que o trabalho missionário seja desenvolvido com maior dignidade. Agora é possível levar a Palavra de Deus, trabalhar diretamente com os detentos, tocá-los, encontrar-se com as famílias em reuniões e realizar encontros tanto com diretores quanto com policiais penais.
Desafios da Pastoral Penitenciária
O desafio principal identificado pela Pastoral é que os presos conhecem Jesus, sabem da sua existência, mas desconhecem a profundidade do seu amor pela pessoa humana. “Não é porque ele cometeu um delito que ficou isolado de Deus”, enfatiza a missionária. O trabalho consiste em levar essa mensagem de amor incondicional, mostrando que há esperança, arrependimento e possibilidade de ressocialização.
A transformação, porém, não se limita aos detentos. A Diocese desenvolveu um trabalho amplo que inclui diretores e policiais penais, incentivando-os a exercer suas funções sem perder de vista a humanidade dos presos. “Vocês podem exercer a função de policiais e de diretores, mas tendo sempre em mente a Palavra de Deus, tratar os presos com mais humanidade”, é a mensagem transmitida aos agentes penitenciários.
Um trabalho pastoral concreto que oferece esperança
Recentemente, a Pastoral Carcerária implementou nas prisões um curso de Justiça Restaurativa, que trabalha a ESPERE; a Escola de Perdão e Reconciliação. Esta metodologia inovadora é aplicada tanto aos internos quanto aos diretores e policiais, criando um ambiente de transformação mútua.
O programa busca ir além da punição, promovendo a cura das feridas causadas pelo crime, tanto nas vítimas quanto nos ofensores. Através dessa abordagem, os detentos são convidados a refletir sobre suas ações, compreender o impacto de seus atos e construir um caminho de reparação e mudança genuína.
O trabalho da Pastoral Carcerária produziu frutos visíveis. Houve crescimento espiritual não apenas para a Yeda, sua famíliae e outras agentes de pastoral mas também para todos aqueles que vivem e trabalham nas unidades prisionais. “Nesse momento que eles passam a nos ouvir, e a gente faz toda essa missão mostrando que Jesus os ama”, relata.
A experiência demonstra que a missão de humanizar o cárcere é possível quando há dedicação, respeito e amor genuíno pelas pessoas. O grupo que atua na Diocese de São Mateus trabalha com a convicção de que ninguém está sozinho, nem mesmo aqueles que a sociedade prefere esquecer atrás das grades.
A transformação do sistema prisional em São Mateus representa uma vitória da dignidade humana sobre a desumanização, da esperança sobre o desespero, da fé sobre o abandono.

