Gabriella Lado. Smc.
Entre 23 e 26 de janeiro de 2026, duas missionárias combonianas realizaram uma missão de humanização junto às comunidades ribeirinhas do município de Calama, em Rondônia. A experiência, marcada por escuta profunda e encontro genuíno, revela o trabalho silencioso que acontece às margens do Rio Madeira.
Irmã Socorro Ribeiro e Irmã Dalva Maria Areia percorreram longas horas de barco – seis horas na ida e sete no retorno – para alcançar as famílias que vivem espalhadas pelas margens do rio. A paróquia São João Batista, administrada pelos padres missionários combonianos, serviu como ponto de partida para os encontros.
Escuta e acolhimento
O trabalho começou no sábado pela manhã, com visitas às famílias do centro. O clima foi de abertura mútua: as missionárias foram acolhidas e, em contrapartida, as pessoas se sentiram à vontade para compartilhar espontaneamente suas histórias de vida. À tarde, a missão seguiu para a comunidade Nossa Senhora Aparecida, encerrando o dia com a participação na celebração da Palavra na comunidade São Francisco de Assis.
A metodologia adotada pelas irmãs priorizou a escuta ativa e o respeito pelos relatos de cada família. Não se tratava de impor conteúdos, mas de criar espaço para que as próprias pessoas pudessem nomear suas experiências e emoções.
Rodas de conversa
No domingo, das 9h às 12h e das 14h às 17h30, as missionárias conduziram rodas de conversa focadas em saúde mental e equilíbrio emocional. O objetivo era ajudar os participantes a identificar e administrar suas emoções, fortalecendo o que chamaram de “forças vitais humanas”.
A ressonância do encontro surpreendeu. Um participante confessou ter ido à atividade com resistência – “mais uma chatice de formação”, pensou – mas saiu com uma descoberta sobre si mesmo: “Sempre disse que sou teimoso, mas descobri que sou persistente no que quero para mim e para os outros.”
Outra participante compartilhou sua decisão de deixar o passado para trás: “Partilhando minha experiência descobri que não quero mais olhar para atrás. Sou uma vencedora por tudo o que vivi, tomando a decisão de não tomar remédio. Me sinto em paz comigo e deixo para atrás a culpa.”
Aprendizados concretos
Os depoimentos revelam aprendizados práticos que os ribeirinhos levaram para casa. Um participante disse ter compreendido que não é responsável pelas atitudes dos outros. Outro aprendeu técnicas corporais simples para aliviar momentos de angústia: “Aprendi a fazer movimentos corporais para aliviar quando o meu coração pesar.”
Houve também quem redescobrisse o sentido de seu serviço comunitário. Um ministro da Eucaristia percebeu que sua dedicação tem raízes profundas: “Estou contente de descobrir que o servir a comunidade como Ministro da Eucaristia é uma herança de meu pai. E cuidar com amor minha mãe idosa e doente é uma herança de minha mãe.”
Missão de presença
A experiência das irmãs Socorro e Dalva ilustra uma dimensão fundamental do trabalho missionário: a presença. Não se trata apenas de percorrer longas distâncias de barco ou enfrentar o calor amazônico, mas de criar condições para que as pessoas se reconheçam como protagonistas de suas próprias histórias.
As comunidades ribeirinhas vivem geograficamente distantes dos centros urbanos, mas sua riqueza humana e espiritual é evidente. O trabalho das missionárias combonianas consiste em valorizar essa riqueza, oferecendo ferramentas para que cada pessoa possa fortalecer sua saúde mental e emocional em meio aos desafios cotidianos da vida à beira do rio.
A missão em Calama terminou, mas seus frutos permanecem nas famílias visitadas e nas comunidades fortalecidas pela experiência de serem ouvidas e reconhecidas em sua dignidade.
Fonte: Relato das Irmãs Socorro Ribeiro e Dalva Maria Areia, missionárias combonianas.

