Inma Cuesta. Smc.
Irmã Zélia Correia carrega consigo uma honestidade que corta através das narrativas romantizadas sobre vida missionária. Quando fala sobre sua experiência, não usa os clichês esperados sobre aventura ou realização pessoal. Em vez disso, vai direto ao núcleo do que a missão realmente custou: “Tive muitas vezes que deixar perder aquilo que eu queria, aquilo que eu pensava, para aderir primeiro ao projeto de Jesus Cristo em mim.”
Deixar perder significa escuta ativa.
Deixar perder. É um verbo interessante, especialmente na sua formulação portuguesa. Não é simplesmente “perder” como um acidente ou uma falha. É “deixar perder” como uma escolha ativa, um despojamento consciente. Aquilo que eu queria—não as coisas materiais necessariamente, mas os desejos, as expectativas, os planos que tinha construído para minha vida. Aquilo que eu pensava—não só opiniões, mas os esquemas mentais, as certezas, o modo como tinha aprendido a entender o mundo.
Esta é a kenosis real da vida missionária, e Irmã Zélia nomeia-a sem rodeios. Antes de poder aderir ao projeto de Jesus Cristo nela, teve que esvaziar-se do seu próprio projeto. E isto não aconteceu uma vez, num momento dramático de conversão. Aconteceu “muitas vezes”—uma kenosis contínua, um despojamento diário, um processo que aparentemente nunca termina enquanto se vive a missão autenticamente.
Criar comunhão e não divisão
Mas há uma segunda parte na sua reflexão que é ainda mais reveladora: “E depois a vida comunitária, todo o esforço para criar comunhão e não divisão.” Reparem na sequência. Primeiro, o despojamento pessoal. Depois, a vida comunitária. Como se uma coisa fosse consequência necessária da outra. Como se não se pudesse viver verdadeiramente em comunidade intercultural sem primeiro ter feito aquele trabalho interior de deixar cair as próprias certezas.
“Todo o esforço para criar comunhão e não divisão.” Há uma sabedoria brutal nesta frase. Irmã Zélia não fala de “viver em harmonia” ou “celebrar a diversidade”—esses slogans bonitos que disfarçam a realidade. Ela fala de esforço, de trabalho consciente e contínuo. E fala de criar comunhão “e não divisão”, como se a tendência natural, a força gravitacional da vida intercultural, fosse justamente a divisão. Como se a comunhão não fosse algo que acontece espontaneamente quando pessoas de culturas diferentes vivem juntas, mas algo que precisa ser ativamente construído, dia após dia, contra a corrente.
Viver em comunidades interculturais é conquistado dia após dia.
Isto desafia completamente a narrativa oficial sobre comunidades internacionais. Costumamos apresentá-las como sinais proféticos, testemunhos bonitos da universalidade do Evangelho. E são isso, sem dúvida. Mas Irmã Zélia revela o custo escondido: a comunidade intercultural não é um dado, é uma conquista. Não é um estado, é um processo. E esse processo exige que cada pessoa, repetidamente, deixe cair aquilo que queria e pensava.
Porque a verdade é que levamos conosco, quando entramos numa comunidade internacional, não apenas nossas roupas e livros, mas todo um mundo de pressupostos culturais que consideramos naturais, óbvios, universais. O modo certo de resolver conflitos. O ritmo apropriado do dia. O que significa ser pontual. Como se expressa respeito. Quando se deve falar e quando se deve calar. O que é educação e o que é frieza. Como se toma decisões. O que é importante e o que é secundário.
E então chegamos à comunidade e descobrimos que a irmã do outro continente tem um conjunto completamente diferente de pressupostos, igualmente naturais para ela, igualmente óbvios. E ambas precisam de deixar cair a ilusão de que o nosso modo é “o modo”, de que a nossa cultura é “a cultura”, de que o nosso pensamento é “o pensamento”. Precisamos de deixar perder a ideia confortável de que somos o centro do universo.
A comunidade revela as nossas feridas
Irmã Zélia diz que isto exige esforço. Não acontece automaticamente só porque somos religiosas, só porque professamos os mesmos votos, só porque servimos o mesmo carisma. A divisão é mais fácil. Criar pequenos grupos dentro da comunidade com quem compartilhamos língua ou cultura. Manter distância educada. Cumprir as obrigações comunitárias sem verdadeira comunhão. Isto é o caminho de menor resistência.
Criar comunhão, pelo contrário, exige que nos exponhamos, que nos tornemos vulneráveis, que deixemos cair as defesas culturais que nos protegem. Exige que peçamos explicação quando não entendemos em vez de julgar. Exige que expliquemos o nosso comportamento em vez de assumir que é óbvio. Exige paciência quando o ritmo do outro nos irrita. Exige humildade quando o nosso modo não é escolhido. Exige perdão quando somos mal compreendidas. Exige perseverança quando tudo em nós quer desistir.
O mistério da cruz e da ressurreição em cada momento
E a cada momento destes, há uma nova oportunidade de deixar perder aquilo que queríamos e pensávamos. De descobrir que o projeto de Jesus Cristo em nós é maior, mais amplo, mais rico do que os nossos projetos pessoais. Que a comunhão que Ele quer criar através de nós exige este preço: a morte do nosso pequeno eu cultural para que possa nascer algo novo, algo que nenhuma de nós poderia criar sozinha.
Há algo profundamente pascal nesta experiência que Irmã Zélia descreve. É o mistério da cruz e ressurreição vivido não numa vez, dramaticamente, mas em mil pequenas mortes diárias que eventualmente geram vida nova. A vida comunitária intercultural torna-se assim um lugar privilegiado de conversão, não apesar das suas dificuldades, mas por causa delas.
Ouça a Irmã Zélia partilhar a sua experiência no Instagram @comboniane

