Inma Cuesta. Smc.
Há desafios que podemos antecipar quando partimos para a missão. O clima diferente, a língua desconhecida, a saudade de casa. Preparamo-nos para estas coisas, mentalizamo-nos, talvez até as romantizamos um pouco. Mas há um desafio que ninguém consegue realmente preparar-nos para enfrentar, porque toca no lugar mais profundo da nossa identidade.
Irmã Prado Fernández, missionária espanhola com décadas de experiência, nomeia-o com uma clareza que desarma: “Um dos desafios mais grandes tem sido dar-me conta de que aquilo que tu és, a cultura que tu tens, não é absoluta, é relativa.”
Parece simples quando dito assim. Claro que a minha cultura é relativa, dirá alguém. Eu sei que há outras culturas, outros modos de viver. Aprendi isso na escola, li sobre isso, viajei. Mas saber intelectualmente que existem outras culturas e descobrir visceralmente que a tua cultura não é o centro do universo são duas coisas completamente diferentes.
Porque a verdade é que crescemos dentro de uma cultura como um peixe cresce dentro da água. Não a vemos, não a questionamos, não a percebemos como “uma cultura entre muitas”. Percebemo-la simplesmente como “a realidade”, “o modo como as coisas são”, “o normal”. Os nossos padrões de comunicação não são “um estilo cultural”, são simplesmente “comunicação”. Os nossos valores não são “culturalmente específicos”, são “valores humanos universais”.
E então chegamos à missão. E descobrimos que as pessoas com quem vivemos têm padrões completamente diferentes, e consideram os nossos estranhos ou ineficazes. Têm valores que priorizam coisas que para nós são secundárias. Resolvem conflitos de modos que nos parecem incompreensíveis. E de repente, o chão desaparece debaixo dos nossos pés.
Porque o que está em jogo não é apenas uma questão de costumes superficiais—se comemos com garfo ou com as mãos, se cumprimentamos com beijo ou com reverência. O que está em jogo é a estrutura profunda através da qual interpretamos a realidade. O que é verdade e o que é mentira. O que é importante e o que é trivial. O que é respeitoso e o que é ofensivo. O que é generosidade e o que é intromissão.
Irmã Prado vai ainda mais fundo: “Outras culturas têm outros modos de olhar para a vida que podem enriquecer a tua.” Reparem no verbo. Não diz “são interessantes” ou “devemos respeitá-las”. Diz “podem enriquecer a tua”. Isto implica que a tua cultura, tal como está, é incompleta. Que há algo que te falta, algo que só podes receber através do encontro com outra forma de ver o mundo.
Esta é uma humilhação profunda. Não no sentido de ser humilhada por alguém, mas no sentido de ser trazida à humildade, de reconhecer os limites daquilo que sempre consideraste o fundamento sólido da tua identidade. E é uma humilhação necessária, porque sem ela não há verdadeiro encontro intercultural. Há turismo, há tolerância educada, há colaboração funcional. Mas não há aquela abertura radical que permite que o outro te transforme.
Mas Irmã Prado não pára aí. Acrescenta algo ainda mais radical: “Esse sentir de que não és necessária… a tua missão não é imprescindível.” Aqui tocamos no nervo mais sensível da identidade missionária. Porque uma coisa é aceitar que a tua cultura não é o centro do mundo. Outra coisa, muito mais difícil, é aceitar que tu não és o centro da missão. Que Deus não precisa de ti. Que a obra continuará com ou sem a tua presença.
Crescemos—especialmente aqueles educados em culturas ocidentais—com uma narrativa de protagonismo. Somos nós que fazemos a diferença, que trazemos a mudança, que salvamos. Esta narrativa alimenta-se de uma mistura complexa de generosidade genuína e messianismo cultural, de desejo sincero de servir e necessidade psicológica de nos sentirmos importantes.
E então a missão revela a verdade: Deus já estava ali antes de chegares. Já estava a trabalhar nos corações, já estava a construir o Seu reino. A tua chegada não iniciou nada. No máximo, foste convidada a juntar-te a algo que já estava em movimento.
“Aquilo que dizia Comboni, que somos essas pedras escondidas,” conclui Irmã Prado. Pedras escondidas debaixo da terra, invisíveis, que ninguém vê nem aplaude, mas que fazem parte da fundação. Não são o edifício visível. São aquilo sobre o qual o edifício se constrói.
Há uma kenosis—um esvaziamento—nesta aceitação. Kenosis da tua cultura como absoluta. Kenosis de ti mesma como necessária. É morrer para uma forma de identidade que te dava segurança e centralidade. E é nascer para uma nova forma de identidade muito mais humilde, mas também muito mais livre.
Porque quando já não precisas de defender a tua cultura como superior, podes finalmente aprender das outras. Quando já não precisas de te sentir necessária, podes servir em liberdade. Quando já não precisas de que a tua missão seja imprescindível, podes celebrar quando outros fazem melhor do que tu, alegrarte quando a comunidade local assume o protagonismo, partir em paz sabendo que a obra nunca foi tua para começar.

