Loreta Dalla Stella, mc – Brasil
Num mundo cada vez mais globalizado e diverso, a Igreja católica enfrenta o desafio de redefinir a sua abordagem missionária. O recente Segundo Congresso Missionário Nacional nas Filipinas colocou em pauta um debate crucial: Chegou a hora de abandonar o conceito tradicional de “missio ad gentes” em favor de novos paradigmas como “inter gentes” e “cum gentibus”?
A “missio ad gentes”, ou missão para os povos, tem sido durante séculos o pilar da atividade missionária da Igreja. No entanto, missiológos como Stephen Bevans e Samuel Agcaracar argumentam que esta abordagem transmite uma visão colonial e um sentido de superioridade cultural que já não têm lugar no mundo moderno.
Em seu lugar, propõem a “missio inter gentes”, um conceito que enfatiza a missão entre os povos. Este novo paradigma busca reconhecer a presença do Espírito Santo em todas as culturas e fomenta um diálogo bidirecional entre o missionário e a comunidade local.
O bispo Raúl Biord Castillo introduz um terceiro conceito crucial neste debate: a “missio cum gentibus”. Esta expressão latina, que significa literalmente “missão com os povos”, representa um passo além na evolução do pensamento missionário.
A “missio cum gentibus” enfatiza a colaboração e o compartilhar com os povos evangelizados. Esta abordagem reconhece que a missão não é um processo unidirecional onde o missionário simplesmente transmite conhecimento, mas uma experiência de enriquecimento mútuo. Neste modelo, o missionário não apenas ensina, mas também aprende com a comunidade local, reconhecendo a presença de Deus e a riqueza espiritual em todas as culturas.
Este conceito implica uma atitude de humildade e abertura por parte do missionário, que se vê não como um mestre superior, mas como um companheiro de jornada na fé. A “missio cum gentibus” busca construir pontes de diálogo, fomentar a reconciliação entre culturas e promover uma verdadeira inculturação do Evangelho.
Na prática, esta abordagem poderia se manifestar em projetos de desenvolvimento comunitário liderados conjuntamente por missionários e líderes locais, na incorporação de elementos culturais locais na liturgia, ou em esforços colaborativos para enfrentar desafios sociais e espirituais.
O bispo Raúl Biord Castillo, em sua análise desta evolução, sublinha a importância de não descartar completamente a “missio ad gentes”, mas de complementá-la com as novas abordagens. Ele propõe uma síntese que inclui também a “missio cum gentibus”, enfatizando a colaboração e o compartilhar com os povos.
Esta evolução no pensamento missiológico reflete uma Igreja que busca adaptar-se às realidades do século XXI. Já não se trata apenas de levar o Evangelho a terras distantes, mas de estabelecer um diálogo respeitoso com diversas culturas e religiões, reconhecendo a riqueza espiritual que cada uma aporta.
O Papa Francisco tem sido um forte impulsionador desta mudança de mentalidade, promovendo uma Igreja “em saída” que não teme o encontro com o outro. Sua ênfase no diálogo inter-religioso e na abertura a todas as culturas está alinhada com esta nova visão da missão.
No entanto, o debate não está encerrado. Alguns teólogos, como Rocco Viviano, advertem sobre o risco de diluir o impulso missionário se o conceito de “ad gentes” for completamente abandonado. Argumentam que ainda existem lugares e pessoas que necessitam do primeiro anúncio do Evangelho.
O desafio para a Igreja nos próximos anos será encontrar um equilíbrio entre estas diferentes abordagens. A missão do século XXI deverá ser capaz de manter a paixão por levar a mensagem de Cristo a todos os cantos do mundo, mas fazê-lo a partir de uma postura de humildade, diálogo e respeito mútuo.
Em última análise, esta evolução na compreensão da missão reflete uma Igreja que busca ser fiel à sua vocação universal enquanto se adapta a um mundo em constante mudança. O futuro da missão católica parece dirigir-se para um modelo mais colaborativo e intercultural, onde o encontro com o outro se torna uma oportunidade de enriquecimento mútuo e crescimento na fé.

